O medo de ter medo: O efeito da ansiedade moderna

Atualizado: 17 de nov. de 2020
Vivemos tempos de expectativas não é mesmo? De sermos filhos perfeitos, esposas, maridos, familiares, funcionários, seres humanos perfeitos... Ufa, são várias as cobranças. Não temos tempo para errar. Ser falho não é uma opção. Bom mesmo, é ser destaque! O galã da novela, o prodígio do esporte, o executivo de sucesso, a sensação da internet. Ocorre que, esta busca pela perfeição, fez crescer um mal silencioso, com raízes profundas no medo...Medo de não ser aceito, de não ser bom o suficiente, de não ser o melhor em tudo...Uma preocupação iminente de que se “Eu” não for Perfeito então não serei nada.
Tudo isso em meio a um estilo de vida que envolve estímulos, cada vez mais rápidos, complexos e intensos, resultantes de uma sociedade moderna, que acarreta em consequências como dificuldade em esperar pelos acontecimentos, e uma preocupação demasiada que pode chegar a graus psicopatológicos de temores.
A ANSIEDADE é uma reação, muito forte, automática, a uma situação de stress, frente a percepção de um perigo iminente, onde há uma resposta inevitável para lutar ou fugir. Foi através deste mecanismo de resposta, que conseguimos sobreviver ao longo de nossa evolução.
O que acontece é que, a sensação de perigo tem a ver com a interpretação do meio à nossa volta, e aparece toda vez que nos sentimos vulneráveis. Há um instinto básico de proteção a vida, isso é intrínseco a nossa existência. A reação ansiosa é o que movimenta o corpo e provoca uma resposta. Os processos de atenção estão diretamente ligados, ao início de um processo ansioso, pois há a instauração de um estado de alerta que diz ao corpo que algo, tido como perigoso, irá acontecer. Sendo o medo manifesto por pensamentos de perigo imediato, ocorre uma resposta emocional e comportamental frente a uma ameaça imediata.
Conforme define, o Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais – DSM V, os transtornos de ansiedade se diferenciam do medo ou da ansiedade adaptativos por serem excessivos ou persistirem por longos períodos de tempo. Daí as perturbações comportamentais relacionadas. Sentir medo por um longo período de tempo não é nenhum pouco saudável e as consequências podem ser muito prejudiciais.
Desde 1990, pesquisas mostram que, houve um aumento nos estudos, relacionados aos transtornos de ansiedade, uma vez que a incidência destas patologias vem crescendo na procura por atendimento psicológico. Dados trazidos por um estudo publicado pela Revista Brasileira de Psiquiatria em 2000, sobre transtornos de ansiedade, constataram que, estes quadros compõem os diagnósticos psiquiátricos mais comuns na população adulta, cerca de 9%, assim como em crianças com uma prevalência estimada de 15%.
Na ânsia de uma busca por perfeição, sem nos darmos conta, podemos esconder nossas inseguranças, negar nossas falhas e buscar por aceitação. Mas o medo não deixou de nos acompanhar. O que acontece, é que não aprendemos a lidar com ele, e não é possível ignorá-lo.
Sentir medo é um processo automático, que acarreta sintomas físicos como: dificuldade de respirar, batimento cardíaco acelerado, boca seca, transpiração, tensão muscular, tremores, vertigem, náusea ou distúrbios gastrintestinais, calorões ou calafrios, urinação frequente, inquietude e dificuldade para engolir. Os distúrbios ansiosos são, em sua maioria, a personificação de nossos medos, por isso é tão difícil lidar com eles.
Temos hoje muitos motivos para ter medo, apreensão sobre o futuro e temor de não alcançar nossas expectativas. Mas a questão é, como lidamos com isso? Se a sensação de perigo tem a ver com a interpretação do ambiente e o estado de alerta, está diretamente envolvido com nosso processo de atenção, talvez mudar o foco e encarar nossos medos de frente, possa ser um caminho. Afinal, o medo de ter medo é o que nos deixa vulneráveis.
Somos mais fortes do que sabemos, e mais capazes do que acreditamos, só que podemos estar prestando atenção, muito mais, em nossas fraquezas, ao nos compararmos com outras pessoas, do que em nossas fortalezas, que nos tornam únicos.
Lidar com a ansiedade é um processo incomodo, que envolve mudanças de percepção, interpretação e comportamentos. Aceitação e autoconhecimento são importantes ferramentas para trabalhar com sintomas físicos. Calma e confiança podem trazer a certeza de que dias melhores virão.




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